terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Arte Menospisada



 As mãos dos homens podem criar arte mesmo sem perceber, fazer arte brincando, construindo ou destruindo.
 Somos ensinados a caminhar olhando sempre em frente, cabeça erguida, mas com cuidado para não tropeçar.
 Eu tropecei.
 Nas ruas da cidade, as calçadas e pavimentos, calçamentos e passeios nunca são homogêneos.
 O cimento, o asfalto, a cerâmica, o buraco, a pedra e o bueiro formam uma confusão de texturas e desenhos.
 Encontrei o chaveiro e a corrente, pedaços de ferro fossilizados no concreto que indica o caminho a se pisar.
 Pegadas gravadas, marcadas por alguém que de alguma forma queria assinar com seus pés a presença no momento da criação.
 O símbolo da paz riscado com o graveto, sem estragar o trabalho do pedreiro e sim ajudar a compor a obra feita com areia, cal e cimento.
 A argamassa seca, fica dura, enrijece, depois da cura serve de brinquedo, riscado com um pedaço de giz o jogo da velha é o momento que só eu registrei, depois da chuva, desaparece.
 A água escoa, pra onde não vemos, pelo buraco desaparece, o ralo e o bueiro fazem parte da composição, sem eles a calçada afogada sofre erosão.
 O poste cortado, o ladrilho quadrado, a caixa de gás, todos presos no nosso caminho, imóveis, aguardando a próxima reforma, a marreta soltando as lascas de sua prisão.
 Eu passo sem pressa, com a câmera apontada para o chão, registrando a arte menospisada, olhando pra baixo, mas com a cabeça nas nuvens.













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